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Futebol: como o fandom mais poderoso do país está na Comunidade LGBTQIAPN+?

5 minutos de leitura
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Escrito por
João Antunes
Inbound Marketing Coordinator

ai generated person with pride flag at stadium

O futebol brasileiro continua gigante dentro de campo, movimentando transmissões e rituais que conhecemos há décadas. No entanto, ele também está se expandindo para lugares que, até pouco tempo atrás, não eram lidos como parte tradicional do jogo. É nessa intersecção entre paixão, cultura e comportamento digital que a Monks desenvolveu o estudo Era dos Fandoms: Modo Torcida.

A nossa pesquisa revela que o ato de torcer mudou bastante nos últimos anos. Se antes a experiência se concentrava quase exclusivamente nas arquibancadas físicas e no placar, hoje ela se distribui em novos gestos, estéticas e linguagens no ambiente digital.

Mais do que nunca, entender essas dinâmicas é o primeiro passo para compreender como a Comunidade LGBTQIAPN+ também se apropria do fandom mais poderoso do Brasil para celebrar sua existência, criar redes de acolhimento e lutar por inclusão. 

Afinal, por que o futebol é o fandom mais poderoso do Brasil?

Não é segredo para ninguém que o futebol mexe com as estruturas do país, mas os dados da nossa pesquisa comprovam o tamanho desse impacto: 77% dos brasileiros veem o esporte como um dos símbolos máximos da identidade nacional.

Esse esporte concentra tudo o que conhecemos sobre cultura de fãs: paixão avassaladora, senso de comunidade bem estruturado e capacidade de cocriação coletiva. Por mobilizar o país de forma tão intensa, o futebol se consolida, sem dúvidas, como o maior fandom do Brasil.

Só que esse modelo tradicional de torcer está passando por uma transição acelerada. A combinação entre a elitização dos ingressos físicos nos estádios e a explosão de conteúdos digitais faz com que a experiência ultrapasse os 90 minutos de cada partida:

 

51% dos torcedores brasileiros afirmam que podem ser grandes fãs de um time mesmo sem frequentar os jogos no estádio. Entre os jovens de 18 a 24 anos, esse número sobe para 64%.

 

O ambiente online descentralizou a narrativa. Se antes a emoção era filtrada apenas por narradores e jornalistas institucionais, hoje os criadores de conteúdo e os próprios torcedores moldam a conversa com humor e proximidade.

E, para as minorias sociais, esse ambiente digital e a busca por novas formas de conexão afetiva abriram portas essenciais para vivenciar o esporte.

O futebol ainda é um lugar de preconceito e machismo?

Apesar do avanço nas discussões sobre diversidade, as barreiras estruturais ainda são evidentes. O ambiente do futebol profissional masculino, historicamente moldado sob preceitos excludentes, ainda é visto como hostil para quem não se enquadra na heteronormatividade.

A pesquisa capitaneada pela Monks, por exemplo, trouxe à tona uma percepção nítida sobre essa realidade: 78% das mulheres afirmam que o ambiente do futebol ainda é marcado por preconceito e machismo. Essa mesma percepção só é compartilhada por 57% dos homens entrevistados, no caso.

Essa disparidade de dados reforça que o sofrimento e a necessidade de vigilância constante são muito mais latentes para quem faz parte de grupos historicamente marginalizados.

No cenário esportivo de alta performance, a discriminação atravessa gerações. Mesmo o tema aqui sendo futebol, relatos como o da atleta de vôlei Tifanny Abreu, uma pessoa trans, mostram como a falta de acolhimento institucional e das torcidas pode impactar carreiras. Da mesma forma, uma pesquisa da NIX Diversidade, em parceria com a Nike, aponta que mais de 60% dos brasileiros já presenciaram ou sofreram discriminação por orientação sexual durante a prática esportiva.

É diante dessa hostilidade que o futebol feminino e as ligas amadoras inclusivas ganham relevância cultural. Eles devolvem ao jogo o afeto, o reconhecimento e a espontaneidade, transformando o futebol, neste caso, em espaços de respiro essenciais onde torcer e jogar não exigem vigilância de gênero ou sexualidade.

 

Torcedores LGBTQIAPN+ existem e resistem!

Historicamente, as arquibancadas de grandes clubes foram palcos de cantos homofóbicos e apagamento das diferenças. Contudo, a organização de coletivos de torcedores voltados para a pauta LGBTQIAPN+ tem reconfigurado as estruturas tradicionais e demonstrado que a paixão pelo futebol não tem gênero ou orientação sexual.

Nas quatro maiores torcidas do estado de São Paulo, o movimento de resistência é bem evidente, embora enfrente desafios distintos:

  • Palmeiras (Porcoíris): o coletivo nasceu para acolher torcedores da Comunidade LGBTQIAPN+, fornecendo suporte emocional e segurança. Devido à hostilidade nos jogos masculinos, o grupo atua fortemente de forma on-line e com faixas no futebol feminino, frequentando os estádios tradicionais de forma velada para autopreservação.
  • Corinthians (Fiel LGBT): fundado com foco na visibilidade, o coletivo alcançou um marco histórico ao conseguir estender a bandeira do arco-íris, símbolo do movimento LGBTQIAPN+, dentro da Neo Química Arena.
  • Santos (Santos Pride): focado na construção de presença nas redes sociais, busca conectar torcedores comuns e fortalecer a rede de apoio à medida que o clube se reestrutura nas competições.
  • São Paulo: o preconceito duplo (alimentado por apelidos pejorativos de torcidas rivais) faz com que a própria torcida, por vezes, seja hostil a agrupamentos explicitamente LGBTQIAPN+. Com isso, grupos progressistas e alinhados a pautas da esquerda política, como o Bloco Tricolor Antifa, acabam cumprindo o papel de porto seguro e acolhimento para esses torcedores.

 

Momentos históricos de visibilidade no esporte

A história global e nacional do esporte também é pavimentada por pioneiros que romperam o silêncio. No universo do futebol, o atacante inglês Justin Fashanu foi o primeiro jogador profissional a se declarar abertamente gay, ainda em 1990.

Desde então, debates sobre a existência (e resistência) de jogadores de futebol gays ganharam o mundo, culminando em protestos históricos sobre os direitos humanos na Copa do Mundo do Qatar, em 2022.

No cenário nacional, as mulheres lideram as frentes de representatividade com muito orgulho. É comum acompanharmos a trajetória inspiradora de jogadoras lésbicas da seleção brasileira de futebol, que utilizam sua projeção internacional para normalizar o afeto e exigir igualdade de direitos, ecoando momentos marcantes como o beijo icônico de Abby Wambach e Sarah Huffman na final da Copa do Mundo Feminina de 2015, por exemplo.

 

Paulistrans: uma ação social de representatividade

Quando olhamos para além do futebol profissional, o cenário amador também cumpre uma função social importante: a de oferecer oportunidades no esporte para quem teve as portas fechadas devido à sua identidade.

É exatamente esse o propósito do Paulistrans, campeonato de futsal voltado exclusivamente para pessoas trans que se tornou uma das maiores referências de inclusão no estado de São Paulo. Em 2026, o torneio já está indo para a sua 4ª edição, com cada vez mais times participantes.

 

Criado em Campinas pelo time Pogonas, cresceu de 3 equipes iniciais para pelo menos 8 times de diferentes cidades (Osasco, Guarulhos, São Roque e São Paulo). Oferece comissão de acolhimento com psicólogos, mediadores de conflito e suporte nutricional, incorporando, ainda, oficinas de defesa pessoal, capoeira e apresentações artísticas de talentos trans.

 

Um dos organizadores do Paulistrans, Tiago Miguel, reforça que o objetivo é responder a uma realidade excludente em que pessoas trans, ao passarem pela transição, deixam de encontrar espaços seguros para jogar em equipes de pessoas cisgênero. 

Portanto, há uma demanda real por espaços seguros no esporte, e que iniciativas como essa são uma resposta direta a um sistema que ainda exclui. Ver um campeonato que nasceu com 3 times chegar a 4ª edição com equipes de diversas cidades, com suporte psicológico, nutricional e até oficinas culturais, me lembra que o futebol inclusivo já está acontecendo, mas ainda sem holofote.

Escutar comunidades como o Paulistrans, apoiar iniciativas e entender que representatividade no esporte não é uma pauta de junho, e isso é o mínimo para que o futebol seja, de fato, um direito acessível a todas as identidades.

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